San Tiago Dantas

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02/08/1931

PANORAMA III

São Paulo, sede do P. R. P., é o berço espiritual da Revolução Brasileira. A deflagração das forças militares se operou no Rio Grande, incendiando a Paraíba, arrastando Minas Gerais (esta sob o imperativo de suas conveniências políticas). Mas a falência das velhas instituições foi decretada em São Paulo. É de São Paulo que parte a ideia da Revolução.

O que havia em São Paulo, antes de 24 de outubro, era uma fachada partidária velando uma realidade profunda. O P. R. P. estava morto. A sua obra de integração do Brasil monárquico às condições de vida da República, assim como o seu trabalho de construção econômica, estavam terminados. Em 1923, ao celebrar-se o cinquentenário da Convenção de Itu,1 Carlos de Campos2 pronunciou um discurso notabilíssimo, dando um balanço das atividades do P. R. P. desde os primórdios republicanos, até aquela data. Este discurso era um retrospecto de uma oração final; era um canto de cisne magnífico como um hino de exaltação e de glória, e era também um dobre de finados.

Porque já faltava à velha agremiação a “consciência partidária”. Aquela unidade de interesses, que destruiu sempre todas as dissidências organizadas no seio da grande agremiação, criara a multiplicidade das influências, estabilizara-se no prestígio municipal e regional dos chefes. E foi o prestígio desses chefes que iniciou a luta interna que matou o interesse doutrinário e solapou a estrutura do partido. Os tabus regionais se submetiam àquele que se transformava em totem da tribo. Estávamos no domínio da influência pessoal. E já naquela ocasião em que o Sr. Carlos de Campos desenvolvia a sua magnífica resenha histórica, o P. R. P. constituía uma propriedade do Sr. Washington Luís …

E tanto assim era que, no ano seguinte abandonava o Partido uma grande ala descontente com a direção que tomava a política estadual. E a significação dessa ruptura não foi maior do que o apaziguamento que se deu logo depois, sem nenhuma reclamação da massa popular, como se a Capital e as cidades do interior assistissem como espectadores desinteressados a todos os movimentos e sinais de vida de um Partido que já não significava coisa alguma para as suas aspirações …

Quem quisesse, realmente, ter uma ideia exata do que significava o P. R. P. para o povo paulista, não precisava sair de dentro de, suas fileiras. Era ali que se encontrava a indiferença mais gélida. Era ali que se encontravam as criticas mais acerbas. Era ali que germinavam já as sementes de novas ideologias.

O P. R. P. não passava de uma máquina eleitoral de fazer senadores e deputados. A Comissão Diretora de uma agência de colocações, e essa era a vida artificial desse Partido.

Ele se desinteressava completamente pelas questões doutrinárias. No seu órgão oficial, o Correio Paulistano,3 alguns moços, que tinham feito uma revolução literária em 1922, pregavam abertamente ideias absolutamente contrárias à doutrina política em que se embasava a grande agremiação. Esses artigos não eram lidos pelos senadores e deputados que só cogitavam de fazer a sua política pessoal e prática. Eles liam, quando muito, as plataformas dos candidatos à presidência, para poderem ter pretextos de elogiar. E essas plataformas, mesmo, revelavam, às vezes, tendências renovadoras com um cunho perfeitamente personalista, que o Partido não entendia, ou fingia não entender, ou mesmo não lia.

Nos municípios, absoluta era a indiferença pelos rumos que o Partido pretendesse tomar. Tudo era a conquista dos diretórios municipais agenciadores de empregos.

Fundou-se pouco depois o Partido Democrático. Era uma organização política baseada nos mesmos princípios do P. R. P. Era, na realidade, o P. R. P. desempenhando um papel de oposição. Também nunca a população paulista se interessou pela doutrina que por acaso inspirasse esse partido. As figuras principais eram de personagens já conhecidos em outros tempos, nas fileiras do P. R. P. Os seus processos de política não fugiam às velhas normas já muito conhecidas no seu adversário. Seu programa não condicionava novos aspectos da vida do Estado.

É que os partidos já não interessavam à opinião. O progresso material de São Paulo tornara-o apolítico, no sentido idealista da palavra.

As classes conservadoras, notadamente os lavradores de café, os comissários, os comerciantes, os industriais, o que queriam eram benefícios de ordem material. Sentados nas fundas poltronas dos seus Clubes, esses magnatas não poupavam os governos que não os protegessem, assim como não tinham restrições para aqueles que lhes cumulassem de benefícios.

E esses homens se desinteressavam, com um desprezo superior, pela política, na alta significação dessa palavra. Queriam, apenas, ser usufrutuários das providências governamentais. A luta travada entre o Partido Democrático e o P. R. P., dois partidos que embora se equivalessem ideologicamente, divergiam apenas no tocante a processos eleitorais, essa luta se faria num terreno que não interessava às classes conservadoras. Displicentes e snobs, comodistas e materialistas, assistiam ao desenrolar dos acontecimentos, com os comentários cômodos dos ambientes cálidos e macios.

De um lado, eram os velhos profissionais os paredros da situação, que forjava presidentes e secretários de Estado, o P. R. P. com a sua engrenagem, os seus medalhões, os seus banquetes e discursos; do outro, alguns professores de Direito, homens de gabinete, rodeados de alguns perrepistas, descontentes, de alguns demagogos, e isso era o P. D. Eram os dois partidos, como o compreendiam as classes conservadoras de São Paulo, indiferentes pela sua vida e pela sua luta.

Estávamos no momento decisivo da morte dos partidos.

Porque também eles não interessavam às massas trabalhadoras. Esses trezentos e tantos mil operários, como o outro extremo da sociedade, também sorriam ironicamente dos partidos. Os partidos, que lutavam pelo poder, não lhes dariam nunca a solução ao problema social. O eleitorado de ambas as agremiações era recrutado entre essa gente. Mas os eleitores votavam por mero interesse de empregos, de auxílios pecuniários, de pequenos favores. Nunca deixou de ganhar eleição em São Paulo quem dispôs de dinheiro suficiente para movimentar o eleitorado. Que o digam os que se elegeram extra chapa.

É que o sentido social se modificara profundamente com o nosso progresso material.

Só a classe média ficou sustentando os partidos. Tanto o P. R. P. como o P. D. só conseguiam viver porque se movimentavam os funcionários, os pequenos comerciantes, os advogados e médicos, os estudantes e jornalistas. Esse era o núcleo central, agregando a transitoriedade dos interesses de outros elementos sociais.

E nesse ambiente de indiferença, o fenômeno subconsciente das aspirações gerais foi-se revelando dentro dos próprios partidos. Era a influência das ideias do século, que aqui nos chegava; o mesmo fenômeno que se dera literariamente, com a derrocada dos medalhões, do velho estilo acadêmico, vinha se operando no espírito dos intelectuais primeiro, em seguida à massa popular.

Era a Democracia que agonizava debaixo dos nossos arranha-céus, ao clamor dos apitos das fábricas.

Lá nas localidades do interior, a passividade dos núcleos municipais, das massas rurais. Aquela força estática que não acudira a monarquia no momento da sua queda, que não acudiria o P. R. P. no instante do seu desbarato. Aquela inércia de mugiks, só interessados em saber quem está de cima, para apoiar. Aquele instinto interesseiro de kulaks, aguardando o desenrolar dos acontecimentos… E, na Capital, a massa proletária revelando uma vontade, um desígnio. O pensamento da Revolução invadindo as classes médias, penetrando nos quartéis, insinuando-se até nos palácios governamentais. Uma nova concepção do Estado, uma nova aspiração social.

Era a Revolução.

Porque a Revolução não é um movimento armado; a Revolução não é, apenas, a deposição de autoridades; a Revolução é muito mais, e ela se pode processar sem armas. Essa Revolução era o estado de espírito de São Paulo, que foi o primeiro Estado brasileiro, possivelmente o único, onde ele se manifestou tão fortemente.

Os que assistiram o agonizar do P. R. P., nos seus últimos vinte dias, tinham diante de si um espetáculo da mais profunda significação histórica. Nas noites melancólicas dos Campos Elíseos, o vulto do presidente rodeava-se de alguns amigos pessoais. Dedicações pessoais de quem assistia a um desastre irremediável: não mais solidariedade doutrinária. As grandes salas foram, pouco a pouco, ficando desertas. Nas noites longas, poucos eram os generais do Partido, poucos os cabos eleitorais. Estavam todos diluídos na indiferença trágica da Cidade, do Estado. E essa indiferença não era propriamente pelo homem que tivera o destino de encarnar a última situação do P. R. P.: era o desinteresse por uma ordem de coisas que já não refletia o espírito paulista, profundamente materializado, quer na sua burguesia comodista, quer no seu proletariado desamparado.

Era a Democracia que morria.

São Paulo não opôs resistência aos invasores. São Paulo assistiu glacialmente à entrada das tropas do Sul no seu território. Os que ainda acreditavam no regime democrático foram saudar os salvadores da democracia. O que tiveram posições de comando no P. R. P. se deixaram aprisionar. Mas o povo olhou e continuou no seu trágico mutismo.

Essa massa popular está espreitando como um tigre. Os homens de partido não saem à rua, para conclamá-la. Os homens de partido não querem emitir opiniões muito definitivas. Estão retraídos. Esquivam-se a entrevistas. Escondem-se nos seus lares, nos seus afazeres.

A política está sendo feita pelos Revolucionários. E São Paulo tem se conservado apenas, como um palco onde se representam alguns atos da Revolução de Outubro .

São Paulo está mudo. E esse silêncio, que destruiu o P. R. P. constringe, asfixia, como os anéis de uma serpente.

Nada é mais impressionante neste momento do que a ausência dessa voz.

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1 Primeira convenção republicana do Brasil. Realizada na cidade paulista de Itu, em 18 de abril de 1873.

2 Carlos de Campos {1866-1927), político paulista. Governador de São Paulo de 1924 a 1927.

3 Correio paulistano, jornal lançado em 1854 na capital paulista, extinto em 1934.

A Razão, 02.08.1931.